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O que se nega quando se nega o corpo?



A atual imposição de uma ideologia que nega o real enquanto materialidade biológica leva à desumanização de alguns grupos sociais, especialmente das mulheres.

Substituir o termo “mulher”, carregado de significados, dores, experiências, vidas e mortes, por “pessoa com vagina” é ferir profundamente os fundamentos que constituem a história feminina e que atravessam a vida particular de cada mulher.


Massimo Recalcati apresenta a tese da evaporação do pai, que se mostra uma forma de leitura possível desse fenômeno em nosso tempo. O enfraquecimento da transmissão do desejo pelo pai, enquanto limite ao gozo tirânico, conduz ao apagamento da Lei da palavra.


E esse apagamento nos leva à perda de referências e de limites, tendo como um de seus efeitos o aumento das demandas judiciais — o apelo à lei dos homens diante de qualquer “não” recebido, real ou simbolicamente.


São os “nãos” da vida que parecem não encontrar mais lugar em nosso tempo, porque contrariam as vontades de Vossas Majestades, os bebês, como diria Sigmund Freud.


É importante ressaltar que, no setting analítico, o sofrimento do sujeito deve ser recepcionado, escutado, lido e escrito pelo analista, independentemente de sua posição política na vida particular. “Homem” e “mulher”, dentro da relação transferencial na clínica, são significantes que devem ser trabalhados pelo par analítico, pois para a psicanálise, eles não dizem nada fora dessa relação.


O problema não reside em alguém se identificar como homem ou mulher, mas na imposição, à moda fascista, de um ideal que joga toda uma sociedade para longe da realidade. A realidade — enquanto conceito — pode ter muitas variações e interpretações na filosofia e na sociologia. Mas a realidade que a vida impõe é aquela que dói não apenas na alma, mas no corpo vivo e feito de carne.


Rechaçar com tanta força a realidade material pode esconder um medo generalizado muito maior, típico de nosso tempo: o medo da boa e velha castração.


Não sou simplesmente aquilo que sinto que sou. Sou aquilo que penso, sinto e, mais ainda, aquilo que veio antes de mim. Sou os atravessamentos do mundo — mas sou também meus processos químicos e biológicos pulsando em minha carne sem cessar.


Afinal, o que eu sou (eu sou?) sem meu corpo físico? Em nome de que Ideal se propõe a sua mutilação?

 
 
 

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© 2023 Mariany Gonçalves Psicanalista. Todos os direitos reservados.

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